Image

Polícia Penal: O Reconhecimento para superar o absurdo

22/11/2017 23:11:19  

Sísifo, o herói grego, tendo revelado o segredo dos deuses foi punido a uma pena eterna, de levar uma pedra ao cume da montanha e chegando lá essa pedra rolava novamente. Sísifo então se dava a esse trabalho eternamente. Metaforicamente, nós agentes/inspetores penitenciários nos suicidamos diariamente com o que nos é posto pelo senso comum. Senso comum que não tem nenhuma responsabilidade para com a nossa função, para com a nossa atividade e tampouco com o resultado do nosso trabalho. O suicídio a que Albert Camus se reporta em seu livro "O mito de Sísifo" é o suicídio tratado como um problema filosófico verdadeiramente sério. Para mim, agente penitenciário, trato-o como nosso suicídio psicológico de um sistema imposto, que nos escraviza numa rotina diária cujo sentido parece não termos. 
Buscando um sentido para a vida, nós conseguimos fazer na subida todo o sacrifício e na descida a reflexão de que, se não tivermos um sentido para desenvolver a nossa atividade, nosso ofício, nossa profissão, estaremos escravos do labor que basta apenas para manter a nossa subsistência fisiológica.

“O homem não é só labor”. Se a visão do seu labor for somente de uma atividade que supre a sua existência fisiológica, você vai sucumbir, vai adoecer e não vai ter um sentido para a vida. Daí para o suicídio físico é um pulo.

Na infância ninguém sonhou ser agente penitenciário, as circunstancias sócio-econômicas nos trouxeram aqui. Então, é necessária a consciência, a reflexão, de que nenhuma atividade se compara ao trabalho do agente/inspetor de Segurança Penitenciária, porque o nosso “objeto” de trabalho não é um ser inanimado. Nosso “objeto” de trabalho é um sujeito como nós, que tem suas mazelas, suas pulsões, suas paixões, sua potência de vontade (como diz Nietzsche), e nós temos que procurar num esforço entender esse universo humano, para não sucumbirmos na convivência com o universo carcerário. Não só no cárcere, mas na convivência com uma sociedade cada vez mais individualista, cada vez mais egocêntrica e que pensa que o mundo gira em torno de seus desejos infindáveis.
Nós, agentes penitenciários, buscamos uma causa para dar sentido à nossa vida e  suportar as agruras do sistema penitenciário. E a encontramos na luta pelo nosso reconhecimento. A aprovação da Polícia Penal dá às nossas vidas um sentido para que suportemos o absurdo de sermos tratados como se não existissemos. Essa busca não é de hoje, começou por aqueles que nos antecederam na luta, como o Paulo Ferreira “Chacrinha”, Fernando Anunciação, Luiz Antônio. Hoje continuamos nessa luta com a Vilma Batista, Sóstenes, Adeilton, Wilker, Lindomar Sobrinho e tantos outros. Porque não é o lugar que você está que te enobrece. É você, com sua conduta humana, com valores superiores que enobrecerá qualquer lugar em que esteja.

Nesses vinte e três anos que estou no sistema penitenciário conheci pessoas que o tornaram um lugar mais nobre, porque elas levaram para dentro do sistema penitenciário valores incutidos na sua formação de caráter que, confrontado com homens e mulheres do outro lado da grade, jamais sucumbiram a um pedido feito por quem quer que seja contrário às normas legais.

Porque a arma do agente penitenciário é a palavra. A palavra que frustra a violência e a força. É a palavra que faz os homens se entenderem, a palavra. Ninguém vai com o exército para a guerra sem antes tentar a diplomacia. O exército fica na retaguarda.
Nosso instrumento é abstrato, é a palavra com suas várias significações que vai tornar o ambiente carcerário tolerável. Tolerável para aquele que fazendo o uso da palavra, baseada em valores superiores, consegue suportar um plantão de 24 horas e torcer para que nas outras 72 horas tenha um abençoado que entregue a unidade prisional nas condições que você a deixou.

Não se constrói nada pelas mãos de um único homem. Eu acredito que a luta, que a vida é feita de união de esforços. Nós somos seres gregários, precisamos estar juntos para sobreviver a uma possível falta de sentido do mundo. Mas não espere do mundo um sentido para sua vida, busque dentro de você um sentido para crescer, para evoluir e avançar. A diretoria do Sindicato dos Servidores do Sistema Penal do Rio de Janeiro tem buscado representar essa categoria com a dignidade que ela merece. Brademos, não adianta tentarem nos impingir mazelas que não são do agente penitenciário. Mas que são próprias da raça humana, com suas paixões e desejos.